Valter Pomar analisa Maduro, Trump e o tigre

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Valter Pomar: Maduro, Trump e o tigre

Situação mudou radicalmente

Talvez não consigamos desvendar, de ponta a ponta, tudo o que houve no ataque americano contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026. Ainda assim, o que veio a público no dia seguinte ajuda a entender um movimento que assusta parte da esquerda: a ideia de que o imperialismo é um tigre de papel que pode ser subestimado ou parado apenas com discursos mais contidos. Não é por acaso que muitos defensores da Venezuela ficaram surpresos com a rapidez e a precisão da ação, questionando se houve entrega de Maduro, traições entre lideranças ou acordos nos bastidores entre Washington, Moscou e Pequim. Em momentos de choque, é humano buscar explicações mais simples, mas o cenário que se desenha é bem mais complexo.

É natural que, diante do impacto, haja quem tente encaixar tudo em uma explicação direta. Em primeiro lugar, porque a distância geográfica costuma deixar espaço para “viajar na maionese” quando o choque bate. Em segundo lugar, porque episódios assim costumam levar a capitulações, traições e acordos que, de fato, existem em histórico confronto entre potências. E em terceiro lugar, porque há setores da esquerda que subestimam a ferocidade do imperialismo americano, inclusive sua capacidade militar, ainda que o episódio tenha mostrado recursos tecnológicos de ponta, unidades de elite e armas de alta precisão, acompanhados de métodos clássicos e modernos de espionagem.

É relevante notar que há quem proponha acompanhar a reação histórica sem perder de vista as lições do momento, sem aceitar explicações simplistas. A perspectiva estratégica aponta que a ofensiva insiste em desorganizar redes do inimigo, afastando adversários periféricos do que é apresentado como o próprio “quintal” de Washington. E, nesse debate, não é apenas o México que fica na linha de fogo; o próprio gesto de manter o petróleo venezuelano sob controle aparece como um objetivo central da operação.

Alguns chegam a dizer que a iniciativa começou com Barack Obama — lembrando o passado de golpes políticos — mas é claro que a figura pública de Donald Trump trouxe traços próprios à condução, que alguns chamam, com certo humor, de uma “Doutrina Donroe” (uma fusão de Donald com Monroe). A ideia que circula é a de que, sob esse guarda-chuva, a Venezuela se tornou a bola da vez, com mensagens que soam como alertas para Cuba, Nicarágua, Uruguai, México, Colômbia e, principalmente, para o Brasil. Em resumo: o tigre não escolhe apenas vítimas, escolhe estilo de luta e tempo de reação.

No plano tático, o que se viu sinalizou uma vitória da operação de cerco e ingerência, com o objetivo explícito de afastar rivais estratégicos e manter o pleno controle de recursos críticos, inclusive o petróleo. Alguns analistas chegaram a insistir que era um tema menor, mas a leitura dominante aponta que a intervenção não é apenas sobre Venezuela: é sobre uma ordem regional e sobre como lidar com a presença de potências concorrentes. E, diante disso, fica claro que não basta provocar o tigre; é preciso ter um plano claro para não se tornar, na prática, a própria presa.

Para muitos, a leitura de conjuntura não abandona elementos de retórica antiga. O debate sobre a psicologia dos líderes — Maduro, Trump, Macron, entre outros — segue presente, mesmo que as discussões pareçam, às vezes, quase caricatas. O que fica evidente é que o imperialismo não atua com pudor, vergonha nem limites quando se trata de proteger seus interesses ou de rearranjar acordos de segurança hemisférica. Nesse ponto, o conteúdo das falas públicas de “aliados” e de adversários também serve como indicador de força e de estratégia.

Não é apenas uma disputa entre esquerda e imperialismo. Também existe uma leitura de que, entre as esquerdas, há quem minimize a existência de uma lógica imperialista — ou que acredite ser possível enfrentá-lo sem reagir com firmeza. No Brasil, por exemplo, o debate envolve posicionamentos sobre a soberania, o papel das redes de comunicação independentes e a autonomia tecnológica frente às grandes plataformas e aos serviços de vigilância. A pergunta que fica é simples e prática: como podemos agir com rapidez e profundidade para não sermos cooptados por pressões externas?

No dia a dia, fica a lição de que a história não responde apenas às palavras. A necessidade de organização, mobilização e uma visão compartilhada é clara: construir a força das classes trabalhadoras em direção a objetivos que preservem soberania, desenvolvimento e liberdade, sem abrir mão de um projeto político alternativo. A força não surge apenas do discurso; ela se constrói com medidas concretas, com capacidade de mobilizar e com uma visão estratégica de longo prazo.

No âmbito político, surgem propostas para posicionar o Brasil com mais firmeza em relação à Venezuela. Entre elas, distintas vozes defendem ações pragmáticas que sinalizem apoio e solidariedade de maneira prática e institucional, reconhecendo e fortalecendo vínculos entre as nações amigas, bem como abrindo espaço para a cooperação em foros multilaterais. E, no tom da ação, a ideia é avançar com passos que demonstrem compromisso com a soberania, com o bem-estar de nossas populações e com uma trajetória socialista que não se deixe capturar por pressões externas.

Valter Pomar é historiador e professor da UFABC (Universidade Federal do ABC). Este texto reflete uma leitura crítica sobre a realidade regional, sem a pretensão de esgotar o tema, mas buscando oferecer uma visão que conecte o que aconteceu com a prática política no Brasil e as escolhas que temos pela frente.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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