Por que a extrema direita europeia se afasta de Trump

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Por que a direita radical da Europa está se afastando de Trump

As políticas de Trump nas áreas econômica e em relação à Venezuela e à Groenlândia tornaram-se elementos tóxicos para seus aliados do outro lado do Atlântico

O casamento entre os partidos nacionalistas de direita da Europa e o presidente norte‑americano parecia sólido há pouco mais de um ano. Contudo, o cenário ganhou nuvens de distância: líderes que caminharam ao lado de Trump nos últimos tempos começaram a se distanciar publicamente do mandatário. No centro dessa tensão, episódios estratégicos de política externa e decisões econômicas do eixo EUA‑Europa mostraram que a parceria pode ter alcançado um ponto de virada.

Um marco simbólico dessa guinada veio com a ordem de Trump para uma operação militar sem precedentes, em 3/1, que atingiu a Venezuela e resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Mesmo que a violência de um regime seja objeto de condenação, a sequência de ações elevou o tom de desconfiança entre Washington e alguns aliados europeus. Nesse contexto, Marine Le Pen, líder do RN, em tom duro, destacou que, embora haja muitas razões para reprovar o regime venezuelano, a soberania nacional continua inquestionável.

Poucos dias depois, as tensões se explicitaram em outro comportamento de Washington. Trump prometeu impor tarifas a países europeus que resistirem às suas propostas, especialmente no que diz respeito ao interesse de se apropriar de mais territórios no Ártico, como a Groenlândia. A resposta não tardou a chegar: houve críticas públicas, com destaque para o reagendamento de duros também a respeito das relações transatlânticas, lembrando que as decisões de Washington não passam despercebidas por quem tem interesse em manter um alinhamento estratégico que agregue segurança e prosperidade regional. O efeito foi sentido por figuras como Nigel Farage, líder do Reform UK, que apontou que tais ameaças não são mero truque político, mas um movimento que fragiliza a relação com os EUA.

No entanto, não foram apenas os gestos econômicos que pesaram. Quando Trump minimizou a cooperação de aliados da OTAN na Guerra do Afeganistão, a linha vermelha de muitos líderes europeus foi testada. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reconheceu que Itália e EUA mantêm laços fundados em valores comuns, mas ressaltou que a amizade precisa de respeito mútuo e que é indispensável a preservação da autonomia europeia. No dia a dia, isso se traduz numa leitura na qual a aliança não justifica perder a capacidade de decidir por si mesma diante de pressões externas.

Essas falas encontraram ecos entre analistas. O professor Alberto Alemanno, da HEC Paris, lembrou que o entendimento entre EUA e União Europeia passou por uma transformação: os laços de cooperação deixaram de ser mera expectativa para se tornarem um espaço de negociação mais cuidadoso, onde a utilidade política de Trump para os populistas europeus esbarra nas linhas vermelhas de cada eleitor. Ele destacou que, em vários casos, a ideia de ampliar a autonomia europeia diante de Washington tornou‑se um objetivo público mais marcante do que a velha dependência.

Outro ponto de leitura importante veio de Brandon Bohrn, da Fundação Bertelsmann, que sugere que os cálculos do governo americano falharam ao lidar com as reações internas sobre Groenlândia. Em linhas parecidas, Alemanno reforçou que o desafio para os aliados é entender onde terminam as utilidades políticas de Trump e onde começam as demandas reais dos eleitores europeus. E quando esse equilíbrio é atingido, algumas vozes na direita europeia tendem a recuar, temendo perder tochas de apoio doméstico caso adiantem uma posição aberta a uma agressiva cooptação econômica de Washington.

Entre as consequências políticas em território europeu, surgem dados que ajudam a entender a dinâmica. Em Alemanha, por exemplo, um levantamento mostrou que apenas 12% da população apoia tanto a atuação dos EUA na Venezuela quanto a posição sobre Groenlândia, enquanto 15% veem Washington como parceiro confiável. No Reino Unido, números semelhantes sinalizam uma distância crescente entre os laços históricos com os EUA e a percepção de que a relação pode não ser tão isenta de controvérsias quanto antes. E em alguns setores, Farage, que já se declarava admirador de Trump, admite que o tema Groenlândia representa a maior ruptura entre EUA e Europa desde controvérsias históricas como o canal de Suez.

Além disso, o mapa político europeu revela uma presença consolidada de blocos nacionalistas no Parlamento Europeu — cerca de um quarto das cadeiras — e, em muitos países, esses movimentos disputam a liderança com passos firmes. Ainda assim, há sinais de unidade em algumas frentes: Meloni, Le Pen, Farage e Weidel, cada uma à sua maneira, se colocam em posição de questionar os rumos traçados por Trump. Por outro lado, nomes como Viktor Orbán, Andrej Babiš e Robert Fico permanecem mais discretos, mantendo um tom de admissão tácita de apoio ou, ao menos, de não confrontação direta com o eixo norte‑americano. Em alguns casos, inclusive, o silêncio dos aliados é interpretado como uma manobra estratégica para não comprometer alianças internas dentro da Europa.

Dentro desse quadro, há quem defenda que a situação é menos de ruptura permanente e mais de distanciamento tático. Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que ainda é cedo para dizer se esse afastamento é algo estrutural ou apenas circunstancial, dependente dos próximos desdobramentos com a Groenlândia e de como Trump calibrará sua política para o continente. A leitura de que o impulso imperial de Trump pode colocar em xeque o “nacionalismo respeitável” cultivado por muitos desses partidos parece ter ganhado fôlego entre estudiosos da política europeia.

O que fica no fim das contas é uma Europa que, de um lado, busca soberania estratégica diante de um adversário que se apresenta de forma imprevisível, e de outro lado, convive com a força de uma direita que, mesmo mantendo traços de seu alinhamento antigo com Washington, não está disposta a abrir mão de sua autonomia eleitoral, de suas agendas sociais e de seu próprio conceito de defesa e segurança. Se essa distância é apenas tática ou sinal de uma transformação mais funda, ainda depende do que vem pela frente — especialmente das próximas novidades envolvendo a Groenlândia e as respostas de Washington a esse novo cenário transatlântico.

Para o leitor comum, o recado é claro: não se pode subestimar como decisões de política externa, checagens de orçamento e redefinições estratégicas echoam no dia a dia de quem vota e decide. No fim das contas, entender esse giro é compreender como a Europa pretende manter a sua voz forte, autônoma e digna de protagonismo no tabuleiro global — sem abrir mão de alianças que interessam a quem busca equilíbrio e prosperidade para a região.

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Jornalista

Fernanda Costa

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