Epstein e Chomsky discutem Lula

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As conversas de Jeffrey Epstein e Noam Chomsky sobre Lula: ‘Prisioneiro político mais importante do mundo’

Governo americano divulgou mais de 100 GB de arquivos relacionados ao caso Epstein, com citações sobre o Brasil e autoridades locais; mensagem sobre presidente brasileiro é de 2018, quando Lula estava preso em Curitiba.

Em setembro de 2018, o linguista e pensador Noam Chomsky teria informado a Jeffrey Epstein, por email, que estava no Brasil acompanhado de sua mulher e envolvido com o movimento Lula Livre, que defendia a libertação do então presidente brasileiro. Segundo os documentos, Chomsky cultivava conversas longas com o financiador, chegando a ser convidado a ficar em residências dele.

A troca de mensagens integra um conjunto de arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA, no âmbito do caso envolvendo Epstein. Além de Epstein e Chomsky, há menções a um terceiro personagem importante na história recente brasileira: o ex-presidente Jair Bolsonaro, citado em diálogos com Epstein e Steve Bannon, assessor próximo a Donald Trump. O teor dessas conversas mostra como o tema Lula Livre atravessava fronteiras e redes de contato.

Entre os trechos divulgados aparece uma referência atribuída a Epstein, em que o contato com Chomsky menciona a ida ao Brasil “antiga e atualmente envolvida com as atividades do Lula Livre” e outros compromissos. Valéria, esposa de Chomsky, também é citada nesse material: segundo os arquivos, ela participou de visitas e esteve no país na época. Chomsky, por sua vez, já havia visitado o ex-presidente Lula na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde ele cumpria pena por um período prolongado.

No panorama internacional, o caso ficou ainda mais complexo quando Lula teve condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, sob a justificativa de que ele não teve seus direitos respeitados ao longo de processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro. Na prática, isso mudou o rumo do cenário político brasileiro, ao menos do ponto de vista jurídico, redefinindo sua elegibilidade para eleições futuras.

Não é a primeira vez que a trajetória entre Lula, Chomsky e Epstein aparece entre os arquivos. Em dezoito meses recentes, surgiram novos trechos que alimentam o debate sobre como a imprensa internacional e figuras conhecidas tetherizavam líderes brasileiros aos bastidores do poder. Em paralelo, houve outros indícios de que a relação entre esses personagens gerou especulações sobre as motivações políticas por trás das visitas e encontros.

Outro elemento que aguçou o interesse público foi um diálogo em que Epstein menciona, em tom de alerta, que Valéria e ele visitariam Lula na prisão. A frase registrada diz algo como: “Chomsky me ligou com Lula. Da prisão. Que mundo.” A defesa de Lula e a própria Casa Civil/Jurídica negaram veementemente que Epstein tenha intermediado qualquer ligação entre o empresário e o ex-presidente. Ainda assim, o material revela que a aura de proximidade entre esses nomes era tema de debates entre círculos distintos.

Em dezembro de 2018, outro email supostamente descreve Lula como “o prisioneiro político mais importante do mundo”, uma formulação que chamou atenção pela sua carga dramática e pelo status de Lula na época. Em resposta, Valéria explicou publicamente que o relato era infundado e que não houve qualquer facilitação de contatos entre Epstein e Lula. O Palácio do Planalto também negou veementemente a existência de uma ligação desse tipo, reforçando a versão oficial de que não houve mediação entre as partes.

A verdade, segundo os documentos, é que Epstein teria usado sua rede para apoiar contatos influentes, e Chomsky, segundo relatos, expressou críticas sobre as acusações que pesavam sobre Lula, descrevendo o cenário como difícil de sustentar diante das evidências que surgiam. Em uma passagem, Chomsky sugeriu que o efeito de tais acusações poderia gerar uma reação semelhante à ideia de que “onde há fumaça, há fogo”, sinalizando ceticismo em relação às acusações contra o ex-presidente.

Além disso, o material revela uma conversa entre Steve Bannon, estrategista político de longa data, e Epstein, na qual Lula e Chomsky também são citados. Epstein avisa a Bannon para tratar com cuidado o assunto do ex‑presidente brasileiro, já que “a esposa dele é brasileira” e o casal mantém laços de amizade com Lula. O diálogo sugere uma rede de contatos que transcende fronteiras e alimenta interpretações sobre como determinadas figuras interagem com temas políticos sensíveis.

Qual era, afinal, a relação entre Noam Chomsky e Jeffrey Epstein? A documentação reflete uma proximidade que, segundo análises, pode ter ido além de simples contatos sociais. Epstein, com sua habilidade financeira, apoiaria Chomsky de maneiras que, ao menos em parte, ajudavam a manter uma relação de colaboração entre ambos. Fontes associadas ao universo de Epstein indicaram que ele tinha uma carteira de clientes ilustres, entre os quais o renomado linguista, que chegou a elogiar Epstein em correspondências.

Chomsky já havia declarado publicamente que Epstein o ajudou a transferir recursos entre contas, em termos que ele descreveu como instrumentos de gestão financeira, sem qualquer envolvimento direto de Epstein na atividade ilícita. Essa afirmação, que reaparece nos relatos, não altera os fatos jurídicos que cada um enfrentava, mas aponta para uma rede de contatos que, para o público, parece cada vez mais entrelaçada com interesses políticos e financeiros.

Por fim, vale lembrar que Epstein acabou enfrentando sentenças de prisão ligadas a crimes sexuais, que se estenderam ao longo de sua trajetória. Em 2019, o caso voltou à tona; o empresário foi encontrado morto em sua cela, o que reforçou a necessidade de entender o que os documentos realmente revelam sobre as interações entre personalidades de peso e decisões políticas recentes.

No conjunto, o material divulgado oferece uma janela para compreender como conversas entre figuras de diferentes mundos podem cruzar episódios políticos e jurídicos relevantes. No dia a dia, para muitos leitores, a pergunta que fica é: qual o impacto real dessas ligações nos rumos da política brasileira e na percepção pública sobre o tema Lula Livre?

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Jornalista

André Santos

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