IA, tecnologia e tensão com Trump: os grandes destaques do Fórum Econômico Mundial
O Fórum Econômico Mundial segue em Davos e aponta mudanças de tom: IA em primeiro plano, espaços de negócio dominando as ruas e debates políticos em segundo plano
Na prática, Davos caminha para a conclusão de mais uma edição do Fórum Econômico Mundial, reunindo gente dos governos, do setor privado e da sociedade civil para tratar dos temas que movem o globo. No terceiro dia, fica claro que a inteligência artificial e as oportunidades de negócio estão no centro do palco, enquanto temas sociais e humanitários aparecem mais como pano de fundo. 56ª edição do encontro já atrai cerca de 3.000 participantes de 130 países, o que consolida a agenda voltada a tecnologia, lucros e governança corporativa como fio condutor da programação.
Conforme relata o repórter Peter S. Goodman, presente no evento, o clima parece ter ganhou outra cara neste ano. Em meio a filas para entradas, festas patrocinadas por gigantes da tecnologia e debates mais políticos ficando em segundo plano, o que se vê é um retrato claro de prioridades: IA e as perspectivas de negócio ocupando o centro do palco, enquanto temas sociais perpassam salas menores e menos concorridas. Na prática, Davos parece transmitir uma mensagem simples: a inovação tecnológica e o ganho financeiro estão ditando o tom das conversas públicas.
À sombra dessa atmosfera, as ruas de Davos viram uma espécie de vitrine de tecnologia. Na noite de segunda, uma longa fila se formava diante da AI House, organização sem fins lucrativos dedicada a fomentar diálogo sobre o futuro da IA. Poucos metros adiante, outra aglomeração se concentrou em um evento sobre IA e cibersegurança promovido pela Axios. O clima era de celebração e expectativa: participantes trocavam dicas para convites, faziam selfies e circulavam entre lounges iluminados por néon, financiados por empresas de tecnologia, criptomoedas e as próprias inovações de IA. Além disso, iniciativas de cunho social pareciam quase invisíveis aos olhos do público presente.
Um retrato concreto dessa mudança aparece ao observar espaços dedicados a ações em defesa de valores sociais. Um pavilhão da Aliança para o Bem Global — Equidade e Igualdade de Gênero, lançado pelo governo da Índia para fortalecer saúde e educação feminina, passo a passo mostrava-se vazio. Segundo quem acompanha o Fórum, essa cena sintetiza o que o evento se tornou: discussões sobre mudanças climáticas, refugiados e saúde existiam, sim, mas em espaços menores e menos concorridos. O protagonismo ficou por conta de grandes grupos empresariais e da promessa de lucros associada à nova onda tecnológica.
A edição, marcada pela presença histórica de autoridades globais, também trouxe o esperado momento político com a chegada de Donald Trump. A expectativa era grande, já que o encontro, que reuniu a maior delegação da história — aproximadamente 3.000 participantes de 130 países — incluía a participação do presidente dos EUA, o que elevou a tensão em relação à segurança e ao ritmo das ruas de Davos. O clima entre autoridades europeias, por sua vez, mostrava-se cauteloso. Christine Lagarde, presidenta do Banco Central Europeu, manifestou a necessidade de uma resposta firme da Europa frente às posições norte-americanas, enquanto Ursula von der Leyen, chefe da Comissão Europeia, advertiu que a resposta europeia à pauta envolvendo a Groenlândia seria inabalável, unida e proporcional.
Entre encontros paralelos, diplomatas e ativistas europeus discutiram o impacto da eventual reentrada de Trump no centro da política global, com críticas à condução dos EUA na relação com a Ucrânia, vistas como refletindo interesses econômicos mais amplos. No entanto, mesmo diante de tensões políticas, o que não faltou foram espaços dedicados às grandes empresas de tecnologia. As áreas mais disputadas do Fórum exibiam as sedes de companhias como Meta, Salesforce, Tata e consultorias globais, com especial destaque para a USA House, patrocinada pela McKinsey e pela Microsoft, e para o prédio da Palantir, associada a projetos de vigilância tecnológica do governo norte-americano.
Do lado corporativo, executivos de tecnologia parecem enxergar o cenário com optimismo pragmático. A ideia dominante é a de criar valor para acionistas, abrindo espaço para desregulamentação e redução de burocracia. Enquanto isso, temas que antes dominavam o discurso Davos, como diversidade, equidade e sustentabilidade, perderam boa parte do espaço que ocupavam no passado, reforçando a leitura de que o palco atual privilegia a retórica de negócios e a promessa de avanços tecnológicos.
Diante desse panorama, muitos observadores passam a ver Davos como uma grande vitrine de negócios, com a inteligência artificial ocupando o centro das atenções. Debates sobre valores, direitos humanos e cooperação internacional continuam existindo, mas não definem o tom dominante do encontro. No fim das contas, a leitura do momento aponta para uma mudança de foco: o que acontece em Davos ajuda a entender onde o mercado aponta o pé — e como as grandes decisões que movem o mundo dos negócios podem, de fato, moldar a vida de quem está do lado de fora da rente das mesas de reuniões.