Desafios de Lula e líderes no Conselho de Paz de Gaza criado por Trump

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Os imensos desafios que Lula e outros líderes mundiais poderão enfrentar no ‘Conselho de Paz’ de Gaza criado por Trump

Apesar das preocupações e complexidades do plano de paz de Trump, ele continua sendo considerado a opção viável por muitos líderes, com promessas de apoio e compromisso para que seja bem-sucedido.

O anúncio recente trouxe à tona duas estruturas de alto nível pensadas para Gaza, ligadas à iniciativa de paz que envolve o presidente dos Estados Unidos. Ainda existem muitas incógnitas — principalmente quem mais poderá entrar no future esquema e como ficará a organização na prática. Até agora, nenhuma voz palestina integra os dois conselhos mais proeminentes divulgados publicamente.

Um deles é o Conselho Executivo Fundador, com foco em investimento e diplomacia. O outro grupo, o Conselho Executivo de Gaza, é responsável por supervisionar na prática o trabalho de campo ligado ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, o NCAG. Este comitê reúne profissionais tecnocratas e, segundo a narrativa oficial, não devem ter filiação política explícita, sob liderança de Ali Shaath, engenheiro civil que já ocupou cargos ministeriais na Autoridade Palestina.

Entre os sete nomes do Conselho Executivo Fundador, a grande maioria é norte‑americana. Estão ativos os mais próximos ao círculo de Donald Trump, incluindo o secretário de Estado e outros aliados. A única exceção entre os sete é Ajay Banga, presidente do Banco Mundial, que tem cidadania americana e origem na Índia. Além disso, o ex‑primeiro ministro britânico Tony Blair foi indicado para integrar o conjunto, o que já provocou críticas entre quem vê o histórico dele como elemento problemático para um processo de paz na região.

Críticos como Mustafa Barghouti e retratos de autoridades não identificadas de países árabes já haviam chamado a atenção para a participação de Blair. A relatora das Nações Unidas para os direitos humanos nos territórios ocupados também se manifestou contra a ideia, lembrando a herança colonial do Reino Unido no Oriente Médio e enfatizando a necessidade de salvaguardar a Palestina. Mesmo assim, o tom inicial da Casa Branca foi de cautela, sinalizando que Blair estaria entre os nomes considerados para a implementação.

Há uma sobreposição visível entre os dois conselhos de alto escalão: Kushner e Witkoff aparecem nas duas comissões, assim como Blair. Por outro lado, o Conselho Executivo de Gaza soma figuras políticas e diplomatas relevantes de países como Turquia, Catar e Emirados Árabes, sob a batuta do ex‑político búlgaro Nickolay Mladenov, nomeado Alto Representante para Gaza. O único membro israelense entre os integrantes é Yakir Gabay, empresário nascido em Israel e radicado no Chipre.

Em seu comunicado, a Casa Branca afirmou que os escolhidos trabalharão para promover uma governança eficaz e serviços de excelência que avancem a paz, a estabilidade e a prosperidade para o povo de Gaza. No entanto, a arquitetura institucional segue sendo complexa, com muitos pontos de interrogação sobre governança, financiamento e implementação concreta no terreno. Mais importante, o plano mantém como eixo o próprio Conselho da Paz, presidido por Trump, cuja composição ainda não foi anunciada. Entre os nomes citados como possíveis participantes estão o primeiro‑ministro britânico em exercício, Keir Starmer, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, o presidente do Egito, Abdel Fattah El‑Sisi, e o líder canadense Mark Carney. Também houve a menção de que o presidente brasileiro, Lula, e o argentino Javier Milei teriam sido convidados to participate.

No essencial, a viabilidade do esforço dependerá da rapidez com que as novas lideranças de cada escalão conseguirão produzir mudanças efetivas no dia a dia dos palestinos, bem como em ações concretas que propiciem uma paz duradoura. Enquanto isso, os desafios se acumulam. A ONU estima que uma parte expressiva da infraestrutura de Gaza tenha sido severamente danificada ou destruída, e as famílias que sobreviveram enfrentam um inverno rigoroso, além de dificuldades com alimentos e abrigo. Grupos humanitários reconhecem avanços pontuais, mas apontam para restrições israelenses que dificultam o trabalho no terreno, enquanto Israel argumenta facilitar a entrega de ajuda e observa falhas na distribuição de recursos já disponíveis.

Outro aspecto que promete o terreno é a reconstrução: além de remover toneladas de entulho, há a tarefa de localizar e descartar explosivos remanescentes, o que torna o processo extraordinariamente exigente. E, no centro de tudo, persiste o desafio de manter o cessar‑fogo — algo que vem se deteriorando na prática.

Para coordenar a desmobilização, foi divulgado também o nome de Major‑General Jasper Jeffers como comandante da Força Internacional de Estabilização (FIE), apoiada por um mandato da ONU. O objetivo é promover a desmilitarização de Gaza, mas ainda não há um roteiro claro sobre como convencer o Hamas a entregar as armas, nem que país colocará tropas na força, nem quais serão suas atribuições e regras de engajamento. O Hamas sustenta que só se desarmará como parte de um acordo que reconheça um Estado palestino; de outro lado, Israel afirma que se retirará apenas após o desarmamento do Hamas. Diante desse impasse, cabe perguntar: como se chegará a um acordo que corporate interesses tão díspares?

No fim das contas, o que está em jogo é a forma de transformar promessas em ações palpáveis e entregar resultados mensuráveis para as pessoas que vivem em Gaza. A pressa para avançar, ainda que com cautela, pode ser o diferencial entre críticas sustentadas e uma virada concreta rumo à paz.

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Jornalista

Lucas Almeida

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