Lula alerta para ‘catástrofe’ se EUA intervierem na Venezuela e pede mais ‘coragem’ à União Europeia
Durante a abertura da cúpula do Mercosul, o presidente brasileiro enfatizou os riscos de uma intervenção externa e cobrou posicionamento firme da UE, ao mesmo tempo em que o bloco discute avanços no acordo comercial.
No início da sessão de abertura da cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro o alerta: uma eventual intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela não seria apenas uma decisão estratégica, seria uma catástrofe humanitária para a região. Além disso, ele pediu à União Europeia que demonstre mais coragem para seguir adiante com o acordo de livre comércio com o Mercosul, cuja assinatura vem sendo adiada há tempos.
Para Lula, as verdadeiras ameaças à soberania aparecem hoje de forma intensa: guerras, forças que operam contra a democracia e o crime organizado. Ele lembrou que já se passaram mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas e que o continente volta a conviver com a presença militar de potências extrarregionais, o que ele vê como um sinal de alerta para a região.
Essa leitura levou Lula a enfatizar que uma intervenção armada na Venezuela configuraria catástrofe humanitária para o hemisfério sul e deixaria um precedente perigoso para o mundo inteiro, dificultando qualquer saída diplomática que busque evitar o conflito.
O pronunciamento de Lula chega num momento em que também circulam mensagens de outros polos de poder. Em entrevista à NBC, o presidente dos EUA, Donald Trump, não descartou a possibilidade de uma guerra com a Venezuela. Enquanto isso, o brasileiro sinalizou que está aberto a atuar como mediador em favor de uma solução pacífica entre Washington e Caracas, incluindo a possibilidade de manter conversas com Trump para evitar uma escalada.
Na prática, as tensões entre Nicolás Maduro e Washington vêm se intensificando. Desde agosto, os Estados Unidos concentram uma presença militar relevante no Caribe e conduzem ações que atingiram navios no que o governo americano define como combate ao tráfico de drogas na região. Ao menos 104 pessoas teriam morrido nesses ataques, segundo fontes não oficiais, enquanto não há provas apresentadas de que as embarcações estivessem realmente envolvidas em atividades ilícitas. Paralelamente, Trump tem promovido um bloqueio total a petroleiros que se dirigem à Venezuela ou que partem do país, e não deixa de mencionar a possibilidade de uma intervenção terrestre.
No decorrer da cúpula, são esperadas declarações dos outros governantes sobre o tema. Em reuniões preparatórias, os chanceleres da Argentina e do Paraguai — Pablo Quirno e Rubén Ramírez Lezcano — também expressaram preocupações com a crise venezuelana, reforçando a necessidade de cautela e de soluções políticas para a região.
Mercosul x União Europeia. Além disso, Lula voltou a destacar que a UE precisa de coragem após o adiamento da assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco europeu. “Sem coragem e vontade política dos dirigentes, não será possível concluir uma negociação que já arrasta há 26 anos”, afirmou o presidente na abertura da cúpula, em território brasileiro.
À medida que o encontro avança, a expectativa se volta para as falas dos líderes e para o impacto dessas posições na vida cotidiana dos brasileiros e da região. Com o Brasil exercendo a presidência rotativa pela última vez neste ciclo, a cúpula de Foz do Iguaçu ganha relevância como espaço de definição sobre caminhos da diplomacia regional e da relação com potências externas.