Rússia perde aliado na Venezuela, mas mira lucro com Trump de faroeste

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Rússia perde aliado na Venezuela, mas espera se beneficiar com política de “faroeste” de Trump

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA muda o mapa regional: Moscou vê potencial ganho ao dividir o mundo em esferas de influência, enquanto Washington afirma o controle no Hemisfério

A notícia de que as forças especiais dos Estados Unidos prenderam o líder venezuelano Nicolás Maduro provocou uma reviravolta pragmática para a Rússia. Com um aliado de peso retirado do tabuleiro latino, o presidente Vladimir Putin ficou privado de uma posição estratégica na região, onde as reservas de petróleo sempre foram motivo de interesse. A operação coloca os EUA num papel de controlador temporário da Venezuela, país com as maiores reservas de crude do planeta, e alimenta debates sobre como esse movimento pode afetar o equilíbrio de poder no continente.

No entanto, no nível das leituras estratégicas, não faltam quem veja, em meio ao impulso americano, oportunidades para Moscou. Alguns analistas russos sugerem que a ação de Washington pode revelar um tipo de “doutrina Monroe moderna” em prática, com novas salvaguardas para o domínio norte-americano. O que parece claro é que a divisão do mundo em esferas de influência ganha relevância no discurso dos que observam o cenário latino-americano, e a Rússia não quer ficar à margem.

De um lado, há quem avalie que a falha de Maduro agora abre espaço para a Rússia explorar movimentos reservados na geopolítica regional. Do outro, há quem destaque que a prioridade dos EUA continua sendo a consolidação de uma presença americana mais firme no Hemisfério, sob a interpretação de uma doutrina que, na prática, busca manter Washington no centro do tabuleiro energético regional. Em termos simples: o petróleo venezuelano volta a ocupar o centro das atenções, e isso não é pouca coisa para Moscou, que acompanha de perto cada desdobramento.

Na prática, a leitura russa do episódio aponta que, ao menos na retórica, o que a Rússia vê é a possibilidade de contornar a narrativa de “perda de influência” com uma estratégia de compensação. Uma fonte de alto nível em Moscou comentou, sob condição de anonimato, que a gestão de crises pode ser convertida em uma oportunidade para redefinir a presença russa na região, desde que haja combinação entre firmeza de posição e abertura a parcerias onde o equilíbrio de poder convém a Moscou. “A busca por uma esfera de influência não apenas no Caribe, mas de modo mais amplo na América, já não é novidade para nós”, ressaltou a fonte, destacando que a Rússia pode buscar manter seu espaço sem confrontos diretos com os EUA.

Além disso, outro interlocutor russo enfatizou que os principais países ocidentais evitaram críticas explícitas à operação, o que, na visão de Moscou, sinaliza uma receptividade cautelosa a mudanças abruptas no quadro regional. Ainda assim, a percepção de que a Venezuela permanece vazia de um governo estável continua a alimentetar especulações sobre as consequências de longo prazo para o petróleo venezuelano e para o papel estratégico de Moscou na região.

Para entender o amplo retrato, vale olhar também para a visão de quem acompanha o radar do Kremlin sobre as ambições americanas na antiga esfera soviética. Putin, segundo essa linha de leitura, tem procurado consolidar uma esfera de influência na Ásia Central, no Cáucaso e na Ucrânia, enquanto Washington aponta para uma reação internacional que, na prática, busca manter sua liderança energética e geopolítica. O ministro das Relações Exteriores da Rússia abriu um canal de diálogo com Washington, pedindo a libertação de Maduro e chamando as ações de pirataria moderna no Caribe, o que mostra que, mesmo sem uma reação unificada, há uma tentativa de moldar o debate internacional.

Entre os nomes que ajudam a compor esse tabuleiro, surge a lembrança de episódios históricos. Um analista russo citado por veículos de notícias relembrou a odda comparação com acontecimentos do passado e ressaltou que “não existe, muitas vezes, uma lei internacional tão rígida quanto a lei da força”, destacando que as grandes potências se orientam por interesses estratégicos. Ao mesmo tempo, há quem aposte que a “Doutrina Monroe” pode ganhar uma versão atualizada, com o objetivo de manter a hegemonia regional dos EUA, ainda que essa leitura exija continuar avaliando as reações globais a cada novo passo.

Já no fronto da retórica oficial, a postura do governo russo manteve o tom de cautela. O ministério das Relações Exteriores classificou as ações dos EUA como uma forma de pirataria contemporânea no Caribe, enquanto a mídia estatal descreveu a operação como um sequestro político que desloca o poder regional. Referências históricas a episódios de forte impacto geopolítico, como a captura de líderes e mudanças abruptas de governo no passado, aparecem como crônicas de uma época em que a história parece se repetir sob novos rostos e parâmetros.

É claro que a discussão não se restringe a jatos e manobras diplomáticas. A avaliação é de que o cenário não apenas muda o mapa político, mas também o jogo de interesses entre consumidores, produtores, investidores e governos. E no dia a dia, isso pode se traduzir em novas oportunidades para acordos energéticos, rotas de suprimento e alianças que, antes, pareciam improváveis. Mas o que isso muda na prática para o cidadão comum? Possivelmente, maior atenção à volatilidade do petróleo, a possibilidade de mudanças rápidas no custo de vida e a necessidade de acompanhar, com olhar crítico, como as potências utilizam crises para moldar o ambiente internacional a seu favor.

O que fica claro é que o enredo não termina aqui. Moscou observa com atenção cada passo de Washington, avaliando riscos e potenciais ganhos, enquanto tenta preservar seus interesses estratégicos no tabuleiro global. No fim das contas, a situação na Venezuela é mais uma peça de um quebra-cabeça maior, no qual a geopolítica, a energia e a diplomacia se entrelaçam de forma cada vez mais próxima. E o leitor, em casa, pode acompanhar os desdobramentos com o olhar atento de quem sabe que, no mundo de hoje, decisões de hoje podem redefinir o mapa de amanhã.

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Jornalista

Renata Oliveira

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