Lula vê Venezuela instável com ultimato dos EUA à vice de Maduro

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Governo Lula vê cenário incerto no comando da Venezuela em meio a novo ultimato dos EUA à vice de Maduro

Brasil reconheceu a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, como atual governante do país após a captura de chavista

O governo do Lula colocou em pauta uma leitura diferente da crise venezuelana ao reconhecer Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela, como a autoridade em comando no país, especialmente após a ofensiva dos EUA que resultou na capturar de Nicolás Maduro nas primeiras horas de sábado. A mudança de postura foi anunciada por Laura da Rocha, secretária-geral de Relações Exteriores, logo após uma reunião com o presidente e demais ministros no Itamaraty para tratar do tema.

Na prática, Lula condenou a ação norte-americana contra Maduro, enquanto participou virtualmente do encontro realizado no meio de uma operação que mexe com a equação política regional. Do lado do Planalto, a sensação é de que ainda faltam informações de qualidade sobre quem de fato tende a ditar o ritmo de poder na Venezuela, já que Delcy Rodríguez busca negociar com Washington e, segundo fontes, depende dessa conversación para confirmar ou não a sua permanência no cargo. Uma fonte que acompanha as discussões forjou a ideia de que “ela fica no poder apenas se atender ao que eles querem.”

Para um diplomata brasileiro que acompanha de perto o caso, não está totalmente claro qual seria o plano de ação dos Estados Unidos sem Maduro, principalmente diante das declarações oficiais que, por ora, não traduzem um caminho definido. Enquanto isso, o presidente norte-americano, Donald Trump, foi às manchetes ao dizer que os EUA governarão a Venezuela após a derrubada de Maduro, mantendo uma “transição” para uma nova administração venezuelana, o que aumenta a incerteza sobre o horizonte político do país

Em clima de tensão, Rodríguez apareceu em uma live transmitida pela conta de Maduro para negar qualquer derrubada de seu aliado e se apresentar como defensora dos recursos naturais venezuelanos. Pouco depois, o secretário de Estado Marco Rubio adotou o tom de ultimato ao afirmar que os Estados Unidos agiriam nas próximas semanas com base nas “ações e nos fatos” do governo venezuelano. O recado é claro: havia espaço para negociações, mas não sem condições, o que gera um cenário de incógnita dentro da própria Caracas.

Antes da mudança de governança, a leitura brasileira era de isolamento da gestão liderada por Maduro e de pouca disposição de intervenções de potências como China e Rússia para intervir, mesmo que condenassem publicamente a posição dos EUA. A avaliação interna apontava, porém, que as prioridades dessas potências passam pelas próprias questões regionais — a guerra na Ucrânia para Moscou e a questão de Taiwan para Pequim — o que alimentou a percepção de que o pós-Maduro seria o ângulo mais sensível da equação.

Entre os temores, o que mais preocupa é o estágio pós-derrocamento: disputas dentro das Forças Armadas venezuelanas ou entre milícias poderiam provocar desordem social semelhante ao que se viu em outras regiões após intervenções externas. Além disso, há o receio de impactos na fronteira com o Brasil, principalmente no fluxo de migrantes para Roraima, caso a Venezuela passe por um período de instabilidade interna.

Por aqui, a linha oficial reforça que a fronteira está sob controle. Em Brasília, Laura da Rocha disse, no mesmo dia, que o Brasil participará da reunião do Conselho de Segurança da ONU, na segunda-feira, para discutir a ação norte-americana. O país poderá se manifestar, mas não terá direito a voto, já que não é membro permanente nesse momento. A leitura do Itamaraty é de que a participação é importante para acompanhar o desenrolar e defender posições de diálogo e estabilidade regional.

Em termos de bastidores, o chanceler Mauro Vieira não participou presencialmente da conversa por estar em trânsito, e seus auxiliares destacaram que o rubro da questão venezuelana exige cautela. O ministro da Defesa, José Múcio, por sua vez, voltou a garantir que a fronteira brasileira com a Venezuela permanece estável, com movimento reduzido e uma percepção de tranquilidade que contrasta com a tensão observada em Washington e Caracas. Ainda segundo o Itamaraty, cerca de 100 brasileiros que estavam fazendo turismo na Venezuela retornaram rapidamente ao Brasil pela fronteira, reforçando a leitura de que, no dia a dia, a vida continua mais ou menos em ritmo de feriado.

No fim das contas, para quem observa de perto a geopolítica regional, a legitimidade de quem governa a Venezuela continua em aberto, enquanto as forças políticas locais tentam navegar entre pressões externas e interesses internos. A aposta brasileira é pela continuidade do diálogo e pela busca de uma solução que evite novos atritos, mantendo a fronteira estável e a cooperação regional em foco. Como isso se traduzirá no tempo real das decisões internacionais ainda está por ser visto, mas a leitura comum é de que o cenário permanece extremamente volátil e repleto de incógnitas para a população venezuelana.

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Jornalista

Lucas Almeida

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