Quais países podem estar na mira de Trump depois da Venezuela?
Trump espalha sinalizações de intervenção ao redor da região: Colômbia, Cuba, Irã e Groenlândia entram no radar, além de outras situações que chamam a atenção do mundo.
No estúdio político que molda seu segundo mandato, o tema externo segue em evidência. Depois de ações contundentes contra a Venezuela — com a captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores durante uma operação noturna em Caracas — o presidente americano recorre à Doutrina Monroe para justificar sua visão de liderança no hemisfério. Agora, aos olhos do público, a tal estratégia passa a ganhar um apelido próprio: a Doutrina Donroe. E, nos últimos dias, ele passou a avisar sobre outros alvos potenciais no mapa internacional.
Groenlândia ocupa, na prática, um lugar de alta relevância estratégica. A presença de base militar americana, como a Base Espacial de Pituffik, já está estabelecida, mas o tom de Trump é de ambição de controle sobre a ilha inteira. Em suas palavras, o território precisa ser visto sob a perspectiva de segurança nacional, com a alegação de que a região estaria cercada por navios de várias nações. A Groenlândia, além de sua imensa extensão, guarda reservas de terras raras, itens cruciais para a indústria de smartphones, veículos elétricos e equipamento militar. Enquanto isso, as produções chinesa e russa na área aparecem como um argumento para reforçar o que seria, nas palavras do presidente, uma necessidade de maior soberania. A ilha faz parte do Reino da Dinamarca, situada a milhares de quilômetros do litoral norte-americano, e sua posição estratégica é cada vez mais comentada no contexto de novas rotas comerciais que emergem com o derretimento gradual do gelo polar. O primeiro-ministro local, Jens Frederik Nielsen, reagiu rápido, classificando a ideia como “fantasia” e pedindo diálogo dentro das regras internacionais.
Colômbia surge como um vizinho próximo da Venezuela e, historicamente, um parceiro difícil de ignorar quando o assunto é segurança regional. O país é rico em petróleo, também detentor de minérios valiosos e uma posição-chave no comércio de ouro, prata, esmeraldas, platina e carvão. Além disso, abriga um corredor de atividades ilícitas que envolve o tráfico de drogas, o que coloca a Colômbia no centro de tensões com Washington. Em meio a uma ofensiva diplomática e econômica que inclui sanções, o tema voltou a subir à tona: nos bastidores, Trump tem feito críticas a Petro, sugerindo que o governo colombiano não estaria agindo com a firmeza necessária contra as cartelas de drogas. Em voos oficiais, ele declarou que a Colômbia é “dirigida por um homem doente” e insinuou a possibilidade de ações diretas, enquanto os Estados Unidos mantêm apoio — inclusive com investimentos militares destinados a fortalecer a luta contra o crime organizado. No dia a dia, esse papel de aliada dos EUA permanece forte, mas o discurso americano deixa no ar a sensação de que novos desdobramentos podem surgir a qualquer momento.
Irã é outro ponto sensível no tabuleiro regional. O país vem enfrentando protestos em massa contra o governo, e Trump advertiu que as autoridades iranianas sofreriam consequências fortes caso a repressão se intensifique. “Se houver mais mortes entre manifestantes, haverá um golpe muito duro dos Estados Unidos”, afirmou o presidente, referindo-se a uma resposta que, segundo ele, já foi observada antes. Embora a Doutrina Donroe não esteja formalmente incluída no domínio oficial iraniano, o tom de liderança do país já antecipava novos cenários de confronto. A pauta envolve também o recente reforço de cooperação entre Israel e Washington, com ataques contra instalações nucleares iranianas que marcaram um capítulo tenso no confronto regional. O antedito de uma reunião de alto nível entre Trump e o premiê Benjamin Netanyahu reforça a leitura de que 2026 pode reservar anúncios ainda mais contundentes.
México recebe atento o peso da agenda interna americana. Desde a eleição de 2016, o tema da fronteira sul serviu de âncora para um discurso de endurecimento, com planos de fechamento de lacunas migratórias e alterações na configuração geopolítica da região. Em sua segunda passagem pelo poder, Trump passou a associcar alterações administrativas ao Golfo do México, que passou a ser identificado como Golfo da América — uma mudança simbólica que reforça a narrativa de redefinir fronteiras. O discurso insiste na ideia de que as autoridades mexicanas não estariam conseguindo conter o fluxo de imigrantes e de drogas, sinalizando uma virada na relação entre os dois países. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, rejeitou qualquer possibilidade de ações militares no território mexicano, destacando a importância de resolver as questões entre as nações por meios políticos e diplomáticos.
Cuba fica a poucos quilômetros da Flórida e, historicamente, é palco de divisas entre posições duras e tentativas de reaproximação. Em suas declarações, Trump sinalizou que uma intervenção militar direto em Cuba pode não ser necessária — sugeriu, em vez disso, que o regime poderia estar “pronto para desabar” por conta própria. A fonte de renda de Havana, historicamente ligada ao petróleo venezuelano, aparece como fator de vulnerabilidade caso haja mudança na conjuntura venezuelana. Enquanto isso, o secretário de Estado, Marco Rubio, conhecido por posições firmes, reforça o tom de alerta: se fosse morar em Havana, ele estaria, segundo ele, “preocupado, pelo menos um pouco”. E quando o presidente fala, o mundo acompanha com atenção.
Entre os desdobramentos, não há dúvida de que a geopolítica da região está mudando rapidamente. A Doutrina Donroe parece, aos olhos de analistas, mais um fio que costura uma narrativa sobre o papel máximo dos EUA no continente — com a prática de prever ações, trocar mensagens diretas com aliados e, por vezes, indicar caminhos de uso da força. No fim das contas, a pergunta que fica é simples: para o cidadão comum, o que muda no dia a dia quando o discurso de intervenções se torna parte do cotidiano político?
- Países citados: Groenlândia, Colômbia, Irã, México e Cuba.