Por que mudança radical de Trump na política externa dos EUA preocupa Europa
Uma análise da nova estratégia de segurança nacional do governo Trump e seus impactos na Europa, América Latina e no mundo
A Estratégia de Segurança Nacional elaborada pela administração Trump está mexendo com os nervos de aliados próximos e sinaliza uma guinada nas prioridades da política externa dos EUA. O documento, com 33 páginas, descreve o cenário mundial sobretudo como um tabuleiro econômico, privilegiando acordos bilaterais e o nacionalismo econômico, enquanto o multilateralismo e a promoção da democracia aparecem em segundo plano. No dia a dia, isso cria um ruído perceptível entre quem tem histórico de cooperação com Washington e quem observa o uso mais amplo da força econômica como ferramenta de influência.
Segundo Tom Bateman, correspondente da BBC, as vertentes ideológicas do governo aparecem com nitidez no material, que ele analisa no podcast The Global Story do Serviço Mundial da BBC. A leitura dele é de que o documento revela linhas de pensamento que vão além de ajustes táticos: trata-se de uma reconfiguração radical do jeito de pensar a atuação externa dos EUA.
Para a América Latina, as implicações são perceptíveis na prática. A estratégia sugere uma leitura renovada da Doutrina Monroe, apresentando o hemisfério Ocidental como espaço de interesse prioritário para a estabilidade norte-americana. A ideia é manter governos mais alinhados aos interesses dos EUA, especialmente com a ascensão de governos de direita na região, e ainda reforçar uma visão de que a região é parte essencial da influência econômica e estratégica de Washington.
Por outro lado, o documento parece deixar de lado críticas contundentes a adversários como Rússia e China, ao mesmo tempo em que adota uma linguagem mais contundente com a Europa. Em vez de promover uma aliança baseada em valores compartilhados, o texto sugere leituras que colocam a Europa sob pressão para revisar seu papel na ordem global, com foco na migração, na identidade ocidental e na soberania econômica.
O tom sobre a Europa gira em torno de uma ideia de “eliminação civilizacional”: a seção dedicada ao tema afirma que o continente enfrentaria mudanças profundas caso abrisse mão de instituições multilaterais e de políticas migratórias que, na visão da estratégia, influenciam a identidade ocidental. A expressão de alerta levou líderes europeus a reconhecerem a gravidade do tom, ainda que com visões distintas sobre como responder.
Na imprensa europeia, a reação foi rápida. Le Monde descreveu o movimento como um divórcio histórico com o ciclo de cooperação que moldou a ordem europeia desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Le Figaro, por sua vez, apontou possíveis contradições internas entre defender o não intervencionismo e, ao mesmo tempo, apoiar intervenções em casos que envolvam interesses europeus.
O texto também detalha um apoio explícito a movimentos de oposição na Europa que defendem o nacionalismo econômico e uma postura rígida contra a migração. Partidos considerados “patrióticos” aparecem como peças de uma estratégia de influência, incluindo a AfD na Alemanha, o Partido Reformista no Reino Unido e o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen na França.
A comparação com a América Latina é inevitável para quem acompanha a política externa dos EUA. Segundo Bateman, episódios recentes mostraram esse padrão de atuação: ajuda e sinalizações de apoio a governos de direita, interpretados por críticos como interferência aberta ou velada. Na Argentina, por exemplo, houve confirmação de ações que foram vistas como apoio externo próximo a Milei, pouco antes de eleições legislativas que definiriam o curso de seu projeto político. O mesmo tipo de leitura surgiu em Honduras, com indícios de favorecimento ao candidato de direita Nasry “Tito” Asfura, e no Brasil, onde críticas a decisões judiciais contra ex-presidentes deixaram claro o tom de pressão externa.
O documento também reforça a noção de um corolário Trump à Doutrina Monroe, posicionando o hemisfério como área central da política externa. O objetivo explícito é garantir que a região permaneça estável e bem governada para desencorajar migração em massa para os EUA. Ainda que não mencione diretamente a China, o relatório destaca a competição econômica na região como uma prioridade, sinalizando que novas visitas diplomáticas, como de representantes do governo, devem acompanhar a intensificação da presença norte‑americana. Além disso, não se descarta o uso da força em cenários de narcotráfico ou instabilidade regional, reforçando uma postura de dissuasão que já aparece no cotidiano de Washington no Caribe e nas águas próximas à Venezuela.
Com o desgaste nas relações entre EUA e Europa já perceptível antes, a tensão se tornou mais evidente no contexto da guerra na Ucrânia. O documento sugere que as capitais europeias não compreenderam inteiramente as dinâmicas de poder em jogo e que é preciso investir para estabilizar a região. A União Europeia é apresentada, no texto, como obstáculo a esforços dos EUA para encerrar o conflito, o que levaria a uma reinterpretação de como as economias europeias poderiam se manter estáveis diante de pressões estratégicas de Washington. A mensagem central é clara: a Ucrânia deve continuar existindo como Estado viável, mas isso exigiria que Europa e EUA reconhecessem a dominância russa em certas frentes.
Segundo Bateman, o tom da estratégia mostra que Trump pode ter perdido a paciência com a Europa e com a Ucrânia, com uma leitura de que os europeus devem aceitar um desfecho mais favorável aos interesses russos. A reunião no Salão Oval entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intensificou esse debate, sendo interpretada por muitos como um sinal de pautas mais fortes para favorecer a Rússia. A Rússia recebeu de modo favorável a estratégia, descrevendo-a como amplamente compatível com sua visão, o que reforça a percepção de que estamos diante de mudanças reais no tabuleiro global.
De modo geral, a nova Estratégia de Segurança Nacional já reconfigurou os debates em Washington e em várias capitais europeias. As implicações para a Ucrânia, para as relações entre EUA e Europa e para a ordem global permanecem em evolução. O que fica claro é que o governo Trump quer redefinir as prioridades da política externa e espera que seus aliados se ajustem a essa nova realidade, com impactos que vão além do âmbito diplomático e entram no cotidiano de leitores, eleitores e cidadãos que observam a cada passo como o poder é aplicado no mundo.