‘Cuba não conseguirá sobreviver’: 4 pontos-chave para entender como Trump está usando o petróleo para pressionar governo da ilha
A ameaça de Trump de impor tarifas aos países que enviam petróleo para Cuba pode desencadear uma crise humanitária sem precedentes na ilha.
No embalo dessas tensões, o cenário cubano entra de cabeça em uma encruzilhada econômica que já afeta a vida cotidiana de milhões de pessoas. Enquanto os debates políticos ganham contornos de jogada estratégica, o que está em jogo é o abastecimento de energia, um tema que, na prática, respinga na energia que chega às casas, aos hospitais e aos serviços essenciais. E no centro disso tudo está a relação de Cuba com seus fornecedores de petróleo, que hoje se tornou mais sensível a decisões externas do que há anos.
1. A ordem executiva. Em termos formais, a ofensiva de Washington ganhou contornos legais com a assinatura de uma ordem que declara estado de emergência nacional, sob o argumento de que a situação com Cuba representa uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA. O documento encara a ilha como elemento desestabilizador da região e aponta alianças com potências como Rússia, China e Irã, além de associá-la a grupos considerados terroristas. Na prática, o objetivo é dissuadir terceiros países de venderem petróleo para Cuba sob o risco de tarifas mais altas. Segundo analistas, essa manobra busca, sobretudo, manter o fluxo de energia sob controle, ao lado de pressões políticas, sem, contudo, sinalizar metas de mudança de regime.
Para o correspondente da BBC News, Will Grant, a escalada é apresentada como uma questão de segurança nacional: a energia que alimenta a ilha passa a ser tratada como uma peça estratégica que envolve a própria geopolítica da região. Enquanto isso, o governo cubano rebate a narrativa, enfatizando que as acusações são infundadas e que a pressa por tarifas representa uma manobra de estrangulamento econômico. O tom entre as partes, inclusive, variou entre críticas públicas e agradecimentos velados a quem mantém a posição de Cuba como um ator que resiste a pressões externas.
2. Crise do petróleo em Cuba. A situação energética já era delicada: o país precisa de cerca de 110 mil barris por dia, mas produz apenas por volta de 40 mil, tornando-se fortemente dependente de importações para manter o funcionamento da economia. Na era prévia, a Venezuela foi o principal elo de abastecimento; hoje, diante das mudanças geopolíticas, o cenário ficou ainda mais sensível. Dados da Kpler, citados pela imprensa financeira, mostram que, em 2026, Cuba recebeu apenas um carregamento vindo do México, cerca de 84 mil barris — equivalente a menos de 3.000 barris por dia. A pausa venezuelana nas remessas, além da intervenção de Trump no mercado, reforçou a vulnerabilidade do sistema cubano de energia. Observadores ressaltam que Cuba não contava com uma margem de manobra suficiente para segurar a demanda interna caso essas remessas sequeem completamente.
Especialistas lembram que o petróleo venezuelano, mesmo com volumes em declínio, tinha um papel duplo: abastecer o consumo urbano e, em alguns períodos, servir de moeda de câmbio para a obtenção de divisas. Com o cenário atual, o risco de interrupção de fornecimentos aumenta, elevando a pressão sobre infraestrutura de energia, transporte e serviços públicos. No dia a dia, isso se traduz em apagões, filas extensas por combustíveis e uma dependência ainda mais explícita de decisões externas para manter acesa a luz nas casas cubanas.
3. O papel do México. O eixo México-Cuba aparece como uma esperança para continuar abastecendo a ilha diante das incertezas. Dados oficiais indicam que, desde a posse de Claudia Sheinbaum, as exportações de petróleo para Cuba cresceram consideravelmente, com estimativas de cerca de 12 mil barris por dia em 2025. Sheinbaum defende que esses carregamentos obedecem a razões humanitárias, pausando qualquer planejamento de ruptura que possa afetar serviços essenciais, como hospitais. Em coletiva recente, a presidente reiterou que impor tarifas aos países que fornecem petróleo para Cuba pode desatar uma crise humanitária de grandes proporções e afirmou que o México busca caminhos para evitar esse desfecho, sem comprometer a própria segurança energética. Vale lembrar que, segundo autoridades mexicanas, esses embarques representam menos de 1% da produção total do país.
Por outro lado, houve sinais de cautela: a Bloomberg reportou que um carregamento planejado para Cuba teria sido cancelado, o que aponta que decisões soberanas da estatal Pemex podem afetar o fluxo de petróleo. Mesmo assim, o governo mexicano continua aberto ao diálogo com Washington para entender o alcance da ordem executiva e evitar ampliar a tensão entre as partes. No âmbito político, a ideia é manter o abastecimento sem colocar o país em uma posição de conflito direto com as tarifas propostas, equilibrando responsabilidade humanitária e interesses estratégicos.
4. Uma economia à beira do colapso. A sequência de embates, tarifas ou não, reforça uma situação já perigosa para Cuba. O país convive há meses com apagões que chegam a durar horas, filas por combustível, alta nos preços de bens básicos e um acúmulo de resíduos que não é recolhido com a devida regularidade. Economistas apontam que, em muitas regiões, a energia fica disponível apenas por algumas horas ao dia, dificultando a manutenção de serviços essenciais e o funcionamento de indústrias. A recessão continua, dificultando o pagamento de dívidas e o acesso a financiamentos externos, com queda na produção industrial — a mais baixa em décadas — e com a agricultura fragilizada pela gestão estatal e pela escassez de insumos. O turismo, importante fonte de divisas, encerrou 2025 com números abaixo do esperado, rebatendo impactos na economia como um todo. Nesse contexto, o governo cubano admite que o bloqueio ao fornecimento de petróleo pode provocar condições de vida extremas para boa parte da população, o que acende o alerta de que a crise não é apenas econômica, mas também social e humanitária. Em meio a esse caldeirão, o próprio líder Miguel Díaz-Canel reconhece que o país enfrenta distorções históricas, influenciadas por um embargo que pesa de forma agressiva sobre o cotidiano de cubanos.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas uma disputa entre potências. Trata-se de uma equação onde energia, diplomacia e economia se cruzam, definindo até onde Cuba consegue manter seus serviços básicos e qual o custo para a população diante de escolhas políticas de peso externo. E para o leitor, fica a pergunta: como essas decisões afetam o dia a dia de quem lê as manchetes, paga contas e sabe que, sem energia, muita coisa simplesmente para?